A gravidez é um momento muito especial para a mulher e seus familiares. É um período que deve ser levado com muito cuidado e atenção. No entanto, muitas mulheres passam por experiências traumáticas. Entenda a violência obstétrica, o que é, como identificar, quais os tipos e exemplos. 

Esse é um tema que não é muito falado no dia a dia e, por isso, pode passar despercebido por quem não sabe o que é violência obstétrica e que ela existe. Embora não seja considerada um crime, ela fere os direitos da mulher e pode e deve ser denunciada para que outras medidas sejam tomadas.

A violência obstétrica não diz respeito apenas a uma agressão clara. Muitas vezes ela acontece de forma sutil. Portanto, a melhor maneira de evitar esse tipo de situação, é saber o que é violência obstétrica.

Violência obstétrica: O que é?

A violência obstétrica é qualquer tipo de agressão ou abuso a uma mulher durante sua gestação, no parto, no puerpério ou até mesmo em casos de necessidade de aborto. Ao contrário do que se pode pensar, a violência obstétrica no Brasil não é apenas física, ela também pode ser verbal ou psicológica.

Dessa maneira, qualquer ato que faça a mulher sofrer desnecessariamente ou que lhe cause algum dano, é considerado uma violência obstétrica. Uma fala que desrespeite a mulher também já é um exemplo de violência obstétrica.

Além disso, ela pode ser causada tanto pelo obstetra, como por qualquer outro profissional da equipe dele ou da clínica ou do hospital envolvido no momento de a mulher dar à luz.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define violência obstétrica como:

“Apropriação do corpo da mulher e dos processos reprodutivos por profissionais de saúde, na forma de um tratamento desumanizado, medicação abusiva ou patologização dos processos naturais, reduzindo a autonomia da paciente e a capacidade de tomar suas próprias decisões livremente sobre seu corpo e sua sexualidade, o que tem consequências negativas em sua qualidade de vida”

Sabendo agora o que é a violência obstétrica, podemos imaginar que às vezes a mulher pode até ser vítima dessa condição e não saber, não é mesmo?

De acordo com a OMS, os casos de violência obstétrica no Brasil e no mundo são mais comuns do que se pode imaginar. No mundo inteiro, muitas mulheres experimentam abusos, desrespeito, maus-tratos e negligência durante a assistência ao parto nas instituições de saúde. Isso porque até mesmo uma cesárea pode ser considerada um exemplo de violência obstétrica, caso ela não seja realizada com uma correta prescrição. 

A pesquisa Nascer, coordenada pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP-Fiocruz), revelou que no setor público as cesarianas chegam a 46% no Brasil. Números que englobam serviços do SUS e os contratados do setor privado.

O problema é que, de acordo com a OMS, esse número deveria ser abaixo de 15%, já que as cesáreas podem oferecer riscos para a saúde da mãe e do bebê. No gráfico abaixo é possível visualizar as taxas de cesáreas no Brasil: 

violência obstétrica o que é mapa

Fonte: Nascer no Brasil

Além dos exemplos já citados, existem outros tipos de violência obstétrica. Para ajudar a entender melhor essa situação, listamos a seguir quais tipos de violência obstétrica.

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Quais os tipos de violência obstétrica?

Abuso físico

Ele acontece quando as mulheres são privadas de melhores alternativas para sua saúde e quando sua integridade corporal é desrespeitada. E, dessa forma, existem mais danos do que ganhos para a mulher.

Alguns exemplos de violência obstétrica neste caso, são: 

  • Uso de ocitocina: Esse é um hormônio utilizado para acelerar o processo de contrações uterinas e, dessa forma, agilizar o trabalho de parto. Quando ela é utilizada de forma incorreta gera um aumento de dor durante as contrações e podem ocasionar sérias complicações para a mulher e o bebê.

  • Prática da episiotomia: A episiotomia é um procedimento cirúrgico. É utilizada para aumentar a abertura do canal vaginal. Consiste em um corte realizado no períneo (entre a vagina e o ânus) com uma tesoura ou bisturi. Essa prática também pode gerar complicações como infecções e problemas de cicatrização.

    A episiotomia pode ser indicada em alguns casos específicos como grande risco de laceração ou sofrimento fetal. É considerada violência obstétrica quando é feita sem o consentimento da mulher e caso não haja recomendação. Portanto deve-se sempre informar a gestante da necessidade do procedimento e também seus possíveis riscos.

 

  • Manobra de Kristeller: É utilizada para acelerar a saída do bebê. Durante as contrações, o bebê é empurrado com a utilização de força em direção à pelve da mulher para auxiliar sua saída. Muitas vezes são usados os braços e até mesmo o joelho para imprimir mais força. Essa prática pode ocasionar lesão dos órgãos internos, hemorragias, fratura de costelas. Além de ser considerada também uma forma de violência psicológica. 

Além disso, privar a paciente de água, de alimentos ou simplesmente de se movimentar durante o parto quando não há uma restrição também são exemplos de violência obstétrica. 

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Violência obstétrica verbal e emocional

Esse tipo de violência consiste em falas que constrangem a mulher ou que a culpam por algum motivo. Por exemplo, quando um profissional culpa a mulher pela complicação do parto ou quando ele diz algo que tem como objetivo persuadi-la a aceitar alguma prática, como a realizar uma episiotomia.

Qualquer fala que fira a liberdade de escolha da mulher também pode ser considerada uma forma de violência. 

Violência por discriminação

Esse tipo de violência obstétrica se dá muito pela condição da mulher. Seja pela cor da pele, idade, aspecto físico ou pela classe social. Dessa forma, ela pode acontecer de várias formas como a humilhação da paciente, desprezar suas decisões ou desejos ou até mesmo quando o profissional julgá-la ignorante. 

Falta de informação 

Muitas vezes por não saber ou não entender determinada prática a mulher pode abrir mão de sua autonomia de escolha. No entanto, é dever do médico explicar toda a situação para que ela saiba tomar uma decisão com base no que julga ser melhor para si e para seu filho. O descaso nesse sentido pode se configurar um tipo de violência obstétrica.  

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Como evitar a violência obstétrica?

A melhor forma de evitar essa condição é entender o que é violência obstétrica. Quando a mulher se empodera com informação ela consegue lutar pelos seus direitos. Para isso, é possível buscar informações sobre o assunto, conversar com outras gestantes e ler livros.

No entanto, sabemos que esse é um período muito delicado em sua vida. Dessa forma, ela pode também pedir ajuda de outras pessoas, para acompanhá-la, por exemplo, nas consultas e durante o parto.

No Brasil, desde 2005, entrou em vigor a Lei do Acompanhante, na qual os serviços de saúde são obrigados a permitir à gestante o direito a acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto. Esse acompanhante será indicado pela gestante, podendo ser o pai do bebê, o parceiro atual, a mãe, um amigo ou amiga, ou qualquer outra pessoa.

Além disso, em 2011, foi sancionada a Rede Cegonha, que é uma estrutura que o Ministério da Saúde oferece aos estados e municípios para que o atendimento do parto seja humanizado.

Outra forma de evitar o que chamamos de violência obstétrica é criar um documento no qual ela explica com detalhes como deseja que seja feito seu parto, conhecido como Plano de Parto. 

Isso faz com que ela fique mais protegida de medidas realizadas pela equipe médica durante o parto. Para criar, é possível pegar as informações trocadas com o médico nas consultas e ver outros modelos para se inspirar.

Se você souber de algum caso ou se você mesma sofreu algum tipo de agressão, saiba que tem como denunciar violência obstétrica. Para fazer a denúncia, basta procurar a secretaria Municipal, Estadual ou Distrital. 

Também é possível fazê-la por meio do Conselho Regional de Medicina (CRM) quando o agressor for um médico; o Conselho Regional de Enfermagem (COREN) quando for o caso de um enfermeiro ou técnico de enfermagem. 

Além disso, existem dois números que também recebem denúncias: pelo Disque Saúde no 136 ou pela Central de atendimento à mulher, no 180.  

Agora que você já viu o que é violência obstétrica e como é a violência obstétrica no Brasil, deu para entender a gravidade do problema, não é mesmo? 

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