Saúde mental na era digital: benefícios e cuidados a serem tomados
Desde 2004, quando o Facebook surgiu, e 109,1 milhões de usuários depois, a internet gira em torno das redes sociais. Instagram, TikTok, X (antigo Twitter), YouTube, Pinterest e outras. São tantos estímulos visuais que a saúde mental na era digital virou pauta de postagens e muitos vídeos online.
Você já analisou o uso que faz das redes sociais? Quantas horas da atividade semanal do seu celular são dedicadas a esses aplicativos? Já se pegou rolando o feed sem prestar atenção ou recusando sair de casa para ficar no sofá vendo e comentando em perfis alheios?
O “Folo” que significa fear of logging off em inglês, na tradução para o português, é o medo de ficar desconectado já pegou muitas pessoas.
Segundo uma pesquisa divulgada pela consultoria Conversion, em 2021, os brasileiros passam quatro horas e oito minutos por dia nas redes sociais. A média é quase o dobro da mundial, que é de duas horas e vinte e cinco minutos.
Será que tanto tempo dedicado ao feed de nossas redes preferidas gera consequências? Neste artigo, explicamos o impacto da tecnologia e das redes sociais na saúde mental, os benefícios de consumir esses canais com equilíbrio e aplicativos que ajudam a manter o bem-estar mental.
Continue a leitura até o fim e confira todas as dicas!
Como o uso da tecnologia afeta a saúde mental?
O uso da tecnologia afeta a saúde mental porque o contato excessivo com telas interfere na concentração, no andamento da rotina, no ciclo do sono, no humor, nos hábitos alimentares e até na saúde dos relacionamentos interpessoais.
O filósofo alemão, Christoph Türcke, destaca em seu livro ‘Sociedade excitada: filosofia da sensação’ que a alta tecnologia está contribuindo para que as pessoas intensifiquem os estímulos à que são expostas, alargando os próprios limites e funcionando como drogas.
Türcke destaca que os smartphones e outros aparelhos digitais nos quais o foco é a imagem são como drogas por contribuírem para a criação de vícios de comportamento, além de afastarem as pessoas de suas vivências no mundo real.
A exposição a telas, seja a do celular, computador ou televisão, ainda afeta a saúde cerebral em longo prazo, causando alterações nas seguintes atividades orgânicas:
Funcionamento do ciclo circadiano
O ciclo circadiano é o ritmo no qual o corpo humano funciona ao longo de um dia, regulado principalmente pela variação de luz do amanhecer até a noite.
O uso de telas por muitas horas, especialmente à noite, afeta o relógio biológico e, consequentemente, diminui a qualidade do sono que regula diversas atividades importantes, podendo levar a doenças, como obesidade, diabetes ou depressão.
O estudo ainda destaca que o tempo “preso” às telas impede que as pessoas façam atividades físicas, que beneficiam de fato a qualidade do sono.
Sistema de recompensa
O cérebro responde aos estímulos que recebe. Quando são positivos, libera dopamina, um neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar.
Porém, quando os percursos de recompensa são utilizados excessivamente, o efeito é menor, necessitando mais uma dose maior de estímulo para obter a sensação de prazer.
A pesquisadora e autora norte-americana, Victoria Dunckley, alerta para esses em crianças e jovens, que passam horas online entretidas com games e redes sociais.
Evolução da capacidade cognitiva
Outro efeito da tecnologia sobre a saúde mental na era digital é na evolução da capacidade cognitiva, ou seja, a habilidade de adquirir conhecimento.
Segundo o artigo sobre demência digital na geração da internet, alerta que muitas horas em frente a telas eleva o risco de desenvolver distúrbios cognitivos, emocionais e comportamentais na idade adulta.
Os principais efeitos da exposição excessiva a telas destacados pela pesquisa são:
- falta de atenção e concentração;
- prejuízos ao processo de aprendizagem e memória;
- desequilíbrio emocional;
- perda de habilidades sociais;
- saúde física ruim;
- predisposição para distúrbios mentais e uso de substâncias.
Desenvolvimento precoce da de Alzheimer
O mesmo artigo citado no tópico anterior alerta para o subdesenvolvimento ou desenvolvimento anormal das conexões neurais, responsáveis pela capacidade cognitivo-comportamental e pela inteligência e capacidade de adaptação, podem ser prejudicados pela exposição precoce a telas.
As alterações na infância podem persistir até a idade adulta, acelerando a neurodegeneração e aumentando os riscos de perda cognitiva e doenças, como Alzheimer e outros tipos de demência precoces.
Leia também >>> Alzheimer: o que é, sintomas e como tratar essa doença.
Qual o impacto das redes sociais na saúde mental?
As redes sociais impactam a saúde mental na era digital por serem os principais canais onde as pessoas passam horas do seu dia. O estímulo imagético pode gerar gatilhos de ansiedade, estresse, depressão e dependência, devido a idealizações de estilo de vida e compra propaganda nas postagens.
A comparação é um dos estímulos imediatos de estar nas redes sociais. Vemos e ouvimos sobre a vida de pessoas que, muitas vezes, não conhecemos e se comparar é um dos primeiros gatilhos.
Esse efeito não vem apenas em relação ao que o outro tem de material, mas das experiências que vive e das oportunidades que tem. Isso gera uma pressão e urgência de ser igual ou ter a mesma disponibilidade.
O impacto seguinte é a baixa autoestima, pois a pessoa se considera inferior ou que fracassou por não viver a vida ideal das redes sociais.
Isso pode levar a sentimentos, como inadequação devido à posição social que ocupa e ansiedade para se encaixar nos padrões físico, profissional e amoroso, que fazem sucesso e chamam a atenção online.
Outra alteração na saúde mental na era digital é o aumento do medo e da insegurança diante das notícias, principalmente as negativas, como, por exemplo, desastres, crimes, violências, crises políticas, etc.
Na pesquisa Vigitel 2021, um levantamento anual feito pelo governo que faz uma análise complexa do estado de saúde da população brasileira, apontou que 11,3% dos brasileiros têm diagnóstico confirmado de depressão.
Com o uso excessivo das redes sociais, pessoas com transtornos mentais podem potencializar os sintomas e aumentar o isolamento, dificultando a recuperação.
Impactos na saúde mental dos jovens
Um artigo publicado na revista Educação, Psicologia e Interfaces, em 2019, com o título ‘Impactos do uso das redes sociais virtuais na saúde mental dos adolescentes: uma revisão sistemática da literatura’, listou os principais riscos do uso excessivo de tecnologias à saúde mental de adolescentes e jovens. São eles:
- taquicardia (batimentos cardíacos acelerados);
- mudança na respiração;
- desenvolvimento de tendinites e alterações na postura;
- prejuízos a convivência familiares;
- cybersickness (náusea digital);
- vulnerabilidade afetiva;
- distúrbios alimentares, sedentarismo e obesidade;
- síndrome do toque fantasma (sensação de que o celular está tocando, sem que ele realmente esteja);
- narcisismo (preocupação com a própria imagem);
- distúrbios de personalidade;
- mudanças na autoestima;
- problemas de concentração nos estudos;
- transtornos de ansiedade, fobia e isolamento social;
- dependências e vícios;
- prática de crimes virtuais;
- grooming (assédio ou abuso sexual via mídias sociais de internet);
- distúrbios do sono;
- cyberbullying;
- depressão;
- suicídio.
Para evitar esses problemas, o artigo aponta alguns sinais que os pais e a própria pessoa podem observar para detectar possíveis problemas, como:
- ficar muito tempo on-line;
- apresentar problemas emocionais (ex: agressividade) e sociais,
- baixo rendimento escolar/acadêmico,
- postar e compartilhar conteúdo negativo;
- mentir o tempo que passa na internet;
- demonstrar sintomas depressivos,
- usar as redes sociais para melhorar o humor,
- ansiedade por curtidas e comentários ou para ter acesso à internet;
- mudanças de comportamento;
- uso compulsivo de internet;
- checar constantemente o telefone;
- diminuir o contato direto com outras pessoas e falta de amigos reais,
- ficar mais vulnerável à opinião dos outros.
Quando o assunto é saúde mental na era digital, é preciso buscar meios de utilizar as tecnologias de forma consciente, mantendo o controle sobre as horas online e entendendo como o consumo de conteúdos on-line afeta a rotina.
Afinal, nem tudo é negativo. As redes sociais e a internet podem ser espaços para consumir cultura, socializar, se expressar criativamente e interagir com pessoas interessadas nos mesmos assuntos, não é mesmo?
5 benefícios da tecnologia para o bem-estar
Mesmo exposto a tantas vulnerabilidades, é possível preservar a saúde mental na era digital e aproveitar os benefícios da tecnologia para o bem-estar. Uma postura proativa é fundamental para encontrar formas saudáveis de aproveitar o tempo on-line.
Confira cinco vantagens da tecnologia que facilitam e ainda ajudam a melhorar os cuidados com a saúde mental:
Fazer terapia on-line
Precisa ou quer fazer terapia, mas não tem tempo para fazer sessões presenciais? Fazer terapia on-line já é uma possibilidade. Uma pesquisa do Instituto FSB para a SulAmérica apontou que 60% dos brasileiros que fazem terapia, iniciaram o processo na pandemia.
Segundo dados da plataforma e-Psi, na qual os psicólogos precisam se cadastrar para fazer atendimento online, para o jornal Folha de S. Paulo, de março de 2020 até agosto de 2023, 137 mil profissionais aderiram à modalidade.
Essa opção não seria possível sem a ajuda da tecnologia e qualquer pessoa pode usufruir desse benefício.
Utilizar aplicativos no apoio ao tratamento médico
Outro benefício da tecnologia para a saúde mental na era digital é utilizar aplicativos para apoiar o tratamento médico. Existem vários apps na área da saúde que ajudam a monitorar horário para tomar remédios, ver resultados de exames, datas de consultas e retornos, etc.
Os aplicativos de meditação são outras ferramentas complementares que podem ajudar nos tratamentos de ansiedade, estresse, insônia, entre outros distúrbios.
Leia também >>> Como tratar a insônia? 6 medicamentos para dormir melhor.
Participar de comunidades online
A criação de comunidades online é uma tendência na internet e o objetivo é reunir pessoas com interesse em comum e estimular trocas mais próximas e promover interações online e presenciais.
Os influenciadores digitais e outros profissionais que atuam profissionalmente nas redes sociais estão promovendo essas conexões e contribuindo positivamente com a saúde mental na era digital.
Fazer cursos e treinamentos a distância
Já pensou em fazer um curso, mas mora longe da cidade onde ele acontece? Existem várias plataformas e cursos a distância (EAD) oferecidos por instituições de ensino pública e particular, que só são possíveis com o apoio da tecnologia.
Além de cursos profissionais, hoje, com as plataformas digitais, é possível aprender e desenvolver um hobby e ter um tempo de qualidade enquanto está conectado à internet.
Consumir conteúdo educativos
O tempo online não precisa ser passivo. Ao observar que está rolando o feed nas redes sociais sem fazer algo produtivo, mude de aplicativo e assista a um vídeo educativo ou sobre um tema que gostaria de aprender.
Estabelecer um objetivo para o seu tempo nas redes sociais ajuda a preservar a saúde mental na era digital, a aproveitar o tempo de forma útil e ter a sensação de que as horas foram bem aproveitadas.
Quais são os melhores aplicativos de saúde mental?
A pesquisa do Instituto FSB para a SulAmérica destaca que a meditação é uma das soluções recomendadas pelos psicólogos aos pacientes para manter a saúde mental na era digital. Por isso, reunimos cinco opções de aplicativos para baixar. Confira!
1. Zen
O Zen – Meditação e Sono é um aplicativo com foco em saúde e bem-estar, que disponibiliza meditações guiadas, que podem ser escolhidas conforme seu objetivo do usuário.
O app ainda disponibiliza programas, exercícios, jornadas e cursos em formato de áudio, texto e vídeo. É possível utilizá-lo gratuitamente, mas existe a possibilidade de upgrade para a versão paga. O asp está disponível nos sistemas iOS e Android.
2. Calm
O Calm é outra opção de aplicativo que auxilia na manutenção da saúde mental na era digital. A proposta do app é ajudar a melhorar a saúde e aumentar sua felicidade. O usuário pode escolher o tipo de auxílio que precisa, como melhorar a qualidade do sono, reduzir o estresse, entre outros.
O aplicativo é gratuito e oferece um plano pago. Também está disponível para iOS e Android.
3. Insight Timer
O Insight Timer é um aplicativo focado em meditações guiadas, que reúne diversos professores que disponibilizam suas meditações de forma gratuita ou paga.
Além das meditações diárias, é possível fazer cursos, acompanhar as atualizações dos professores favoritos e interagir com outros usuários do app. O download é gratuito e está disponível para aparelhos com sistema iOS e Android.
4. myNoise
O myNoise é a opção de aplicativo para ter saúde mental na era digital perfeito para quem prefere sons neutros, chamados também de ruídos brancos.
Conforme o objetivo do momento, o usuário pode escolher sons que ajudam a focar no trabalho, relaxar, desestressar e muito mais. O aplicativo é gratuito e está disponível nos sistemas iOS e Android.
5. Headspace
O Headspace é um aplicativo de saúde mental bastante popular. O foco do app é na meditação e oferece opções para diversos focos, como crescimento pessoal, crises emocionais, sono, ansiedade, entre outros.
Um recurso interessante do aplicativo são as meditações ativas, que podem ser feitas durante uma caminhada ou corrida. O Headspace ajuda a exercitar a atenção plena desde o nível básico até o avançado.
Existe versão gratuita e paga e o app pode ser baixado em aparelhos iOS e Android.
O melhor caminho é o do equilíbrio
Para ter saúde mental na era digital, o melhor caminho é o do equilíbrio. Estabeleça regras de uso e um tempo máximo de exposição diário a telas para evitar os riscos ao seu bem-estar.
Se sentir dificuldades para manter a saúde e o bem-estar digital, procure ajuda médica, evitando ao máximo camuflar o problema passando tempo demais nas redes sociais. Cuide-se!




