No dia 8 de março de 2023 – Dia Internacional da Mulher -, o Governo Federal lançou o Programa de Proteção e Promoção da Saúde e Dignidade Menstrual.
A iniciativa tem como objetivo facilitar o acesso a absorventes e outros itens de higiene necessários durante esse período e combater o tabu da menstruação por meio da conscientização e de esclarecimentos sobre esse processo natural.
Hoje, a pobreza menstrual é uma realidade para milhares de pessoas. A pesquisa “As Brasileiras e a Pobreza Menstrual” do Instituto Locomotiva, encomendada pela Always, mostrou que cerca de 77% das mulheres, pelo menos uma vez na vida, já utilizaram algum item alternativo para absorver o fluxo da menstruação.
Mas você pode até dizer: “Ah, elas utilizam outros itens porque esqueceram o absorvente e foram pegas de surpressa”. De fato, o esquecimento é um dos fatores para o uso de papel higiênico, panos e toalhas para conter o fluxo menstrual. No entanto, o esquecimento é o motivo principal entre mulheres de classe A e B – 83%.
Já entre aquelas pertencentes às classes sociais D e E, a falta de recursos financeiros para comprar o próprio absorvente é a principal razão para o uso de itens alternativos e inadequados – 55%.
No Brasil, 28% das pessoas de baixa renda que menstruam e com idades entre 14 e 45 anos são afetadas pela pobreza menstrual – o que equivale a mais de 11 milhões de pessoas. Os dados são de um levantamento feito pela Johnson & Johnson Consumer Health e pelos Institutos Kyra e Mosaiclab.
Tendo isso em vista, a criação de políticas públicas para a saúde da mulher e promoção da saúde menstrual é urgente.
Neste artigo, vamos explicar tudo o que você precisa saber sobre o Programa de Proteção e Promoção da Saúde e Dignidade Menstrual.
O que é dignidade menstrual?
Podemos definir o que é dignidade menstrual como a garantia de que pessoas que menstruam tenham acesso a itens e condições básicas e adequadas de higiene durante o período da menstruação. É assegurar que tenham direito a absorventes – reutilizáveis ou não -, sabonetes, saneamento básico e acompanhamento periódico com profissionais especializados.
Em 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu a dignidade e a saúde menstrual como uma questão de saúde pública e indispensável para a promoção dos direitos humanos.
A dignidade menstrual é de responsabilidade do poder público, que deve estabelecer políticas para promoção da saúde menstrual e da mulher.
Saúde menstrual: por que é importante promovê-la?
No Brasil, a falta de acesso a absorventes é uma realidade para milhares de pessoas que menstruam. A pobreza menstrual impede que uma significativa parcela da população tenha condições mínimas de higiene íntima, o que se torna um problema de saúde pública.
Quando fazemos o recorte para as meninas mais jovens, nos deparamos com o fato de que a pobreza menstrual é uma das principais causas para evasão escolar. Isso porque muitas garotas deixam de ir à escola quando estão menstruadas, pois não têm à disposição os absorventes adequados para conter o fluxo menstrual.
Em muitos casos, as próprias escolas não contam com uma infraestrutura para higiene íntima segura, como banheiros, água encanada, sabonetes, papel higiênico, toalhas etc.
De acordo com a Unicef, mais de 700 mil meninas não têm acesso a banheiro ou chuveiro em casa; na escola, outras mais de 4 milhões não recebem itens básicos de cuidados íntimos durante a menstruação.
A pobreza e a falta de dignidade menstrual gera também consequências a longo prazo. Sem frequentar a escola, muitas meninas não concluem a formação educacional de qualidade, perdem oportunidades de trabalho e não conseguem contribuir economicamente.
Logo, investir na promoção da saúde menstrual e encarar isso como um dos direitos das pessoas que menstruam é extremamente importante para a construção de uma sociedade mais justa e digna.
O que é o Programa de Proteção e Dignidade Menstrual?
O Programa de Proteção e Promoção da Saúde e Dignidade Menstrual foi instituído por decreto do Governo Federal, em 8 de março de 2023, e prevê a distribuição de absorventes e a implementação de ações de políticas públicas que vão beneficiar mais de 8 milhões de pessoas.
A intenção é assegurar que pessoas de baixa renda, em situação de rua ou em vulnerabilidade econômica e social extrema possam ter acesso, gratuitamente, a itens de higiene pessoal – além de serem incluídas em ações de proteção da saúde e promoção da dignidade menstrual.
Espera-se um investimento anual de, aproximadamente, R$ 418 milhões. Os absorventes e demais produtos serão distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O Programa de Promoção da Saúde Menstrual se compromete também a combater o tabu da menstruação por meio da divulgação de informações corretas sobre esse processo natural.
Considerando que ainda há muito estigma em torno da saúde menstrual, muitas pessoas podem se sentir constrangidas em solicitar os absorventes na rede pública ou conversar sobre esse tema em casa com seus familiares.
Nesse sentido, a intenção do Programa de Proteção e Promoção da Saúde e Dignidade Menstrual é também acabar com a desinformação sobre a menstruação e naturalizar os diálogos sobre higiene íntima e autocuidado durante o ciclo menstrual.
Como quebrar o tabu da menstruação e promover a saúde menstrual?
Uma série de medidas cotidianas e multidisciplinares podem ser tomadas para quebrar o tabu da menstruação e fazer com que as pessoas entendam verdadeiramente como ela funciona, os impactos na vida de quem menstrua e as consequências sociais que o desamparo e a pobreza menstrual podem trazer.
Algumas possíveis soluções para acabar com o estigma e a desinformação sobre saúde menstrual são:
1 – Educação menstrual
Seria interessante educar as pessoas desde a infância sobre o que é a menstruação, porque e como ela ocorre, suas implicações e como fazer o melhor manejo.
O problema é que se fala muito pouco sobre esse tema nas escolas. Para as pessoas que menstruam, essa conversa costuma vir depois que a primeira menstruação acontece – ou seja, a criança ou pré-adolescente fica confusa e não entende muito bem o que está acontecendo.
E, depois que a menarca chega, dificilmente os pais conversam com os filhos. Em geral, nas famílias de extrema vulnerabilidade, em que conversas sobre esse tema sequer são cogitadas.
2 – Acesso à informação de qualidade
Essa segunda possibilidade vai ao encontro do que acabamos de falar. Junto com a educação menstrual, é necessário ampliar o acesso das pessoas às informações de qualidade sobre a menstruação.
Deve-se criar conteúdos com embasamento científico, de fácil consumo e que dialoguem com a realidade das pessoas que menstruam.
Quanto mais informação sobre direitos das mulheres e dignidade menstrual, mais fácil será cobrar e usufruir políticas públicas para a saúde da mulher.
3 – Garantir o acesso aos serviços de saúde da rede pública
Outra maneira de acabar com os estigmas da menstruação e garantir a dignidade e a segurança menstrual é assegurar o acesso aos serviços públicos de saúde.
O contato direto com profissionais especializados é indispensável para esclarecer dúvidas, entender melhor o próprio corpo, realizar o tratamento adequado de eventuais doenças relacionadas à menstruação, fertilidade e aparelho reprodutor, entre outros aspectos do organismo.
Além de ampliar os postos de atendimento à população, é necessário conscientizar as pessoas a procurarem o acolhimento, caso estejam em situação de pobreza menstrual.
4 – Ampliação do saneamento básico
Cerca de 100 milhões de brasileiros moram em regiões que não têm acesso à rede de coleta de esgoto; 34 milhões não recebem água tratada em suas casas.
O saneamento básico ainda é um grande problema que nosso país enfrenta e que se concentra na região norte do Brasil.
Sem o fornecimento de água tratada, é praticamente impossível garantir a dignidade e saúde menstrual das pessoas. É preciso que haja maior investimento na ampliação do saneamento para que essa população consiga realizar os cuidados adequados com a higiene íntima.
5 – Melhoria da infraestrutura das escolas
As escolas precisam ser um espaço acolhedor para seus alunos. Esse objetivo não é alcançado quando o estudante menstrua e não pode contar com uma infraestrutura mínima para fazer sua higiene íntima.
É necessário investir em reformas nos ambientes escolares para garantir que os alunos tenham acesso a bons banheiros, com água tratada e encanada, papel higiênico, absorventes e sabonetes.
Além disso, os profissionais de educação – e também os de administração e manutenção escolar – devem receber o devido treinamento para amparar o aluno durante a menstruação, de modo a evitar constrangimentos ou que a criança ou adolescente se sinta confusa e com medo.
6 – Incentivo a projetos sociais de promoção à dignidade menstrual
Além de criar políticas públicas de combate à pobreza menstrual – como o que já está sendo feito pelo Programa de Proteção e Promoção da Saúde e Dignidade Menstrual -, o poder público deve incentivar projetos não governamentais e ações de empresas privadas na arrecadação e distribuição de absorventes e produtos de higiene pessoal.
As parcerias público-privadas são muito valiosas para ampliar o acesso à saúde menstrual e garantir a dignidade de milhares de pessoas.
Absorventes reutilizáveis: como funcionam?
Estima-se que uma pessoa que menstrua tenha, aproximadamente, 450 ciclos menstruais durante toda a sua vida fértil. Em média, cada ciclo requer o uso de 20 absorventes. Isso dá um montante de 10.000 absorventes.
Considerando que o preço médio de cada absorvente seja de R$ 0,60, ao longo da vida serão gastos cerca de R$ 6.000 com esse item.
Esse valor pode até parecer pouco para algumas pessoas. No entanto, como já vimos aqui neste conteúdo, nem todo mundo tem condições de comprar esse item de necessidade básica para a saúde menstrual.
Tendo isso em vista, uma alternativa interessante são os absorventes reutilizáveis. Feitos de pano e anatomicamente confortáveis, é possível fazer uso deles repetidas vezes; basta lavar corretamente depois da menstruação.
Entenda como essa opção funciona no vídeo abaixo:
Outra alternativa reutilizável para conter o fluxo é o coletor menstrual. Ele é um copinho de silicone que é introduzido no canal vaginal para coletar o sangue. Depois que a menstruação desce, basta retirar o copinho para fazer o descarte sustentável, higienizá-lo e introduzi-lo novamente.
Entenda melhor no vídeo abaixo como essa opção de absorvente reutilizável funciona:
Menstruação: dúvidas frequentes
Para finalizar este conteúdo sobre promoção da saúde menstrual, responderemos a seguir algumas das dúvidas mais frequentes sobre menstruação. Confira!
A menstruação dura quanto tempo?
Geralmente, a menstruação dura de 3 a 8 dias. A duração pode variar de uma pessoa para outra. No entanto, caso se estenda por mais de 8 dias, é fundamental procurar um médico.
O que ocorre no corpo durante a menstruação?
A pessoa menstruada pode experimentar variações no humor e mudanças físicas. Isso se deve às variações hormonais comuns durante esse período. Cólicas, dores nas costas e nas pernas, estresse, alteração no apetite e surgimento de acne são alguns exemplos do que pode acontecer no corpo na menstruação.
Veja também: Como viver melhor com TPM? Aprenda a aliviar os sintomas
Qual a cor normal da menstruação?
O tecido endometrial que é liberado durante a menstruação demora um tempo para se descolar completamente do útero e ser liberado no canal vaginal. Enquanto isso, o material entra em contato com o oxigênio e pode apresentar diferentes tons de acordo com o nível de oxidação.
Assim, são cores consideradas normais na menstruação o vermelho vivo, escuro ou amarronzado (principalmente no final do ciclo).
Pode engravidar menstruada?
Não é comum, mas a mulher pode ovular enquanto está menstruada. Se ela tiver uma relação sexual desprotegida, esse óvulo pode ser fecundado e gerar uma gravidez. Vale a pena reforçar a importância do uso de preservativos, que não apenas previnem gravidez indesejada, como também protegem contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Bom, o que achou deste guia sobre promoção da saúde menstrual?
Combater o estigma da menstruação é um trabalho diário e uma responsabilidade coletiva. É dever do poder público criar políticas que facilitem o acesso de pessoas de baixa renda e vulnerabilidade social e econômica a absorventes e outros itens necessários no período menstrual.
Por outro lado, cabe à sociedade civil encarar esse tema com mais naturalidade, sem tabus. Estabelecer diálogos e se informar através de fontes seguras e confiáveis também contribui para quebrar estigmas e incentivar as pessoas a dar mais atenção e cuidado à saúde menstrual.
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